#91 - A sociedade quer uma sociedade socialista

Perdoem-me pela redundância. Parece um absurdo fazer essa afirmação nos dias de hoje, com a forte polarização entre "comunistas" e "capitalistas" existente no mundo contemporâneo. Essa dualidade se intensificou após a guerra fria, por mais surpreendente que isto pareça ser. Como deve ser de conhecimento de todos, o período após a segunda guerra mundial e a queda do muro de Berlim, que separava Alemanha Oriental (socialista) e Ocidental (capitalista) ficou marcado pelo confronto, não bélico, das duas grandes potências econômicas que rivalizavam neste "Gre-Nal": de um lado Estados Unidos da América, capitalista, e do outro, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, socialista. 

Após o fim deste confronto silencioso, se imaginou que a paz reinaria no mundo, com a vitória das forças ocidentais, com o domínio do livre mercado e adoção do American way of life. A paz pode ter se sobressaído sob qualquer outro sentimento de fúria, mas essa sensação não contaminou o planeta inteiro. Tomemos o exemplo do Brasil: o jogo político entre PT e PSDB, nos anos 90, revelou um confronto que não era novo no país. Um projeto de governo privatista, de valorização do livre mercado que, na prática, gerou o crescimento vertiginoso da extrema pobreza, contra uma outra maneira de enxergar a política, com inclusão social, distribuição de renda, aumento dos direitos trabalhistas, valorização do salário mínimo, criação de programas sociais que atendessem a parcela da população mais necessitada, entre outras medidas. Os governos tucanos duraram oito anos e, na prática, não diferiram em quase nada dos anteriores, inclusive da política econômica adotada na Ditadura Militar. Nas eleições de 2002, uma nova maneira de governar foi eleita, e desfrutamos anos de uma política inclusiva, uma modesta tentativa de criar, dentro de um país continente, uma sociedade igualitária. O problema: confrontou interesses dos ricos e grandes empresários. Incomodou a Globo e o monopólio da mídia manipuladora. 

Por que as pessoas ainda confiam nestes projetos? O conservadorismo, crescente nas eleições de vários países no mundo - me vem a lembrança agora Alemanha e Argentina - crê numa sociedade desigual, gosta da concentração de renda e valoriza o discurso dos bons gestores e não corruptos. Os candidatos representantes desta linha de pensamento se aproveitam de várias lacunas na nossa sociedade: a falta de segurança, o desemprego crescente, o Brasil piada internacional. Terreno fértil para discursos retrógrados: vamos armar a população para termos mais segurança, vamos expulsar os imigrantes, para que os empregos no nosso país sejam ocupados apenas por nativos deste chão e assim teremos soberania e não seremos motivo de piada lá fora. Saindo da teoria, sabemos onde isso chega: concentração de renda, desvalorização da nossa moeda, decréscimo do PIB per capita, restrição dos direitos trabalhistas, etc. 

Tudo isso leva a pergunta: por quais motivos os eleitores não acreditam nos projetos socialistas nas urnas? Ora, por razões já expostas (discurso fácil dos interesseiros) e também pelo grande desserviço que a mídia presta ao manipular as informações de forma tendenciosa. O jogo político dos grandes empresários, do setor capitalista e dos conservadores interessa a grande mídia que, ao não ser regulada, não tem compromisso com a verdade. Mas se formos pensar no que prega o socialismo, veremos que a maioria das pessoas concorda com este lado da fronteira.

Combate a pobreza. Erradicação do analfabetismo. Fortalecimento das instituições públicas, não relegando ao mercado internacional a regulação dos preços dos serviços prestados aqui, ou dos bens aqui vendidos. Por que ser contra? Qual ser humano não gostaria de, no seu país, ver a pobreza exterminada, bem como o analfabetismo? O socialismo não acredita que o governo deva retirar riquezas de quem mereceu ganhar para distribuir a quem não trabalha, e sim acredita na luta pelo fim da desigualdade social, pela taxação das grandes fortunas, como senso de justiça, pela distribuição de renda. Luta pela valorização das escolas públicas, das universidades públicas, gratuitas e de qualidade, luta pela valorização das bolsas de ensino - que em nota da CAPES, constata-se a ameaça de encerramento das mesmas. Qual é o dolo que o socialismo defende?

Quando criticamos o livre mercado, criticamos a política de preço da Petrobras, que é regulada pelo mercado internacional, que gerou a última greve dos caminhoneiros e que acarretou, entre outras malefícios, as filas quilométricas nos postos de gasolina quando estes possuíam combustível. Portanto, lembre-se: quando você, que assim como eu, está de saco cheio do governo Temer, critica a política de preços da Petrobras regulada pelo mercado internacional, você não está criticando o governo Temer, o MDB, o Romero Jucá e seus asseclas. Você está criticando o livre mercado, o liberalismo econômico, a livre concorrência. O livre mercado, defendido pelas pautas da direita, dá nisso. 

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