#94 - Feliz 1964!


A conjuntura política, bem como seus afazeres que me exigiram tempo demais dedicado em outras frentes, me tiraram dessa plataforma de que tanto gosto por bastante tempo. Teve militância nas ruas, teve militância virtual, teve briga com a família, teve tensão, mas quem não teve? Faz parte da vida de um democrata, de um progressista, de um militante da esquerda – só nós vivemos a política da maneira que vivemos. É muito triste, mas mais triste será a vida daqueles brasileiros que sofrerão os ataques do futuro governo de Jair Bolsonaro (PSL). Triste também é ver suas seguidas declarações de ataques as minorias, de ataque a universidade pública, de ataque a tudo que é público e que mereceria melhor atenção dos governos, o que já acontecera em outra época. Os tempos difíceis que tanto temíamos estão se aproximando e a união entre nossos iguais deve ser a nossa lei.



Acredito que há dois consensos sobre a criação da figura de Jair Bolsonaro como um candidato viável. Ele é, sobretudo, uma criação da mídia, que colaborou, por meio de programas de auditório (CQC e Superpop são os exemplos clássicos), com a propaganda eleitoral antecipada de um ex militar ultradireitista e conservador. Foram esses programas de gosto duvidoso que nos revelaram um indivíduo completamente desconectado com a realidade brasileira. Como já o conhecemos, não cabe aqui repetir, no momento em que não convém, suas declarações difamatórias com relação Preta Gil e as mulheres. Porém, essa criação da mídia permitiu com que muitos brasileiros iguais a ele “saíssem do armário”, se sentissem representados e autorizados a transformarem em ações as palavras de seu grande líder. Sem escrúpulos ou qualquer tipo de receio – muito com as “costas largas” - os representantes desse tipo de desgraça matam, esfaqueiam, estupram e menosprezam as minorias sociais, como bem o quer o seu representado. Se dissemos, na campanha presidencial, que “eu sou Lula” ou que “Haddad é Lula”, eles falam, por meio dessas ações: “eu sou racista, eu sou machista, eu sou homofóbico, eu sou misógino. Em outras palavras, eu sou Bolsonaro”.



O outro consenso o qual eu quero me deter é que, além de uma criação midiática, Bolsonaro também é uma criação da esquerda. Falhamos, quando chegamos ao poder, ao deixar de dialogar com as bases. Por que outro motivo perdemos, nessa eleição, tantos votos entre a população mais pobre? Por que perdemos também muitos votos no nordeste, apesar da maciça vitória da frente progressista nessa região? Falta de diálogo, falta de conecção. Faltou entender os anseios da população mais pobre. Se nos reconectarmos com as periferias, temos grandes chances de voltar ao poder. E não falo do PT, falo do campo democrático/progressista, da esquerda brasileira. Temos uma grande missão pela frente, que é enfrentar os ataques do governo bolsonarista durante quatro anos. A equipe econômica de Dilma Roussef, do seu último governo, colaborou torrencialmente para o afundamento do PT na vala comum da política de direita.

Ao ser entrevistado pela Rede Record, logo depois de eleito, Jair Bolsonaro disse que a primeira ação como presidente da república seria a privatização das universidades públicas, não entrando em maiores detalhes. Essa declaração é uma ameaça a um direito conquistado por muitos estudantes pobres, que dependem do poder público para conquistar alguma formação e uma boa posição no mercado de trabalho. Deve ser por isso que querem impedir a manifestação livre de estudantes dentro desses espaços que são públicos. Não querem que sejamos seres pensantes, e não querem que quem está sendo formado hoje, na educação básica, seja um ser pensante. Uma prova disso é a intenção de transformar o ensino fundamental em EaD, o que tiraria o emprego de muitas professoras e professores, além de causar uma preocupação enorme nas mães e nos pais que não terão onde deixar os seus filhos para trabalhar. Outra questão importante quanto a educação básica a distância é o acesso desses alunos a uma rede banda larga com qualidade, para que possa “assistir” a essas aulas. Outra grande preocupação para quem defende a educação pública de qualidade e que já está em debate nas comissões de discussão do Senado Federal: Escola sem partido, ou seja, escola sem pensamento crítico, escola com mordaça. Os defensores desse projeto pensam que existe uma doutrinação de esquerda dentro das escolas, o que não é verdade. Quando aprendemos sobre Paulo Freire? Eu o conheci, por pura ignorância, apenas na Universidade. Quando fomos ensinados sobre o comunismo/socialismo? Fui ensinado sobre essas duas vertentes, de forma muito superficial, quando ensinado também sobre o capitalismo, o liberalismo econômico, os regimes ditatoriais, ou seja, aprendendo sobre diferentes formas de governar, econômica e politicamente. O projeto escola sem partido não se sustenta em pé por 5 segundos.

Perguntado também sobre as primeiras ações do governo, Paulo Guedes, futuro ministro da fazenda, disse que as primeiras ações seriam a reforma da previdência e “rever os direitos dos trabalhadores”. Continua-se, então, a prática que vem desde o governo golpista de Michel Temer: jogar o rombo econômico nas costas dos trabalhadores ao invés de cobrar das grandes empresas que devem milhões à previdência social – que deixou de ser social a muito tempo – como se essa conta fosse nossa. Fazem com a previdência o mesmo que fizeram com a reforma trabalhista, jogando nas costas dos trabalhadores as custas do desemprego, e não da política econômica. “Rever os direitos” só pode ser traduzida em uma coisa: a tesoura do corte dos nossos direitos constitucionais e da CLT continuará funcionando a todo vapor, e cada vez mais afiada. Só com a defesa intransigente nas ruas pelos nossos direitos pode barrar o retrocesso que se aproxima. Graças ao “barulho” feito na Comissão que discutia o projeto escola sem partido é que foi impedida a discussão da matéria, o que deve se tornar a nossa prática quanto aos direitos trabalhistas e previdenciários.

O verdadeiro tapa na cara da nossa sociedade está sendo a nomeação dos ministros. Onyx Lorenzoni, réu confesso, que admitiu receber dinheiro de Caixa 2, dizendo que era homem para reconhecer seus erros, segue sendo deputado e agora será ministro. Ora, alguém que confessa receber caixa 2 não deveria estar atrás das grades? Sérgio Moro, que diz que Caixa 2 é a pior das corrupções, não deveria já ter prendido seu novo colega de ministério? O próprio Moro é outra aberração dos Ministérios. O novo superministro do governo Bolsonaro confessa, assumindo um cargo político, que todas as suas ações tiveram motivação política. Prendeu o líder das pesquisas e agora sai de cima do muro e assume uma bandeira: a bandeira que está ao lado oposto do que réu que prendeu, um verdadeiro escárnio. Ninguém está duvidando aqui da capacidade de Sérgio Moro, que estudou e merece estar onde está. O problema está em um notório juiz tomar partido, ter lado, quando deveria ficar em cima do muro, pois é isso que um magistrado da envergadura que assumiu Moro deveria ter feito. Ele já havia personificado essa figura parcial ao longo do processo, sendo fotografado em eventos ao lado de políticos do PSDB, por exemplo.

Falamos desde o começo dessa eleição que Bolsonaro era Temer. Continua sendo, nada mudou. Como votou a favor da PEC do teto dos gastos, a favor da reforma trabalhista e é a favor da reforma da previdência, dará continuidade ao projeto privatista e entreguista dos derrotados de 2014, que não aceitaram o resultado das urnas. Temer tem veneração por Bolsonaro, deve ter votado nele no segundo turno, pois já quer pôr em prática, esse ano, o plano de governo do presidente eleito. Afinal, a ponte para o futuro tem muitas semelhanças com o projeto Fênix – a ave que ressurge das cinzas, como é chamado o plano de governo do PSL. Vejam vocês a ironia: a ave que ressurge das cinzas é o Brasil, que tinha um estado de bem-estar social em desenvolvimento, e que foi colocado na atual situação pelas forças que hoje governam em Brasília.

Não devemos dizer “eu avisei”. Eles dirão: vocês realmente avisaram, vocês estavam certos. É assim que funciona na política, ela é cíclica. O povo faz apostas e depois percebe o erro. O problema é que as apostas, o pagar pra ver, esperar e ver se dá certo, pode jogar nos nossos colos um governo que não nos beneficiará, e muito pelo contrário: somos, em sua maioria, trabalhadores assalariados, que já sofrem os ataques do governo Michel Temer, e agora sofrerão os ataques do governo entreguista e quiçá fascista de Jair Bolsonaro. Digo quiçá pois não acredito que ele tenha coragem de fazer a metade das coisas que fala, pois ele é um ser desprovido de coragem. Outro problema: seus seguidores seguirão autorizados a fazer o que ele fala. Um ponto contraditório: Jair Bolsonaro diz que é nacionalista, patriota e etc, porém quer vender tudo o que for possível. Ele acha que a corrupção na Petrobras será resolvida com a venda desse que é um dos nossos maiores patrimônios históricos, um patrimônio nacional, quando muitas empresas são multadas por improbidade, por ferir a legislação trabalhista e a Constituição Federal. Por quê? Porque acham que tudo quanto é público é corruptível. Seria uma confissão? A Petrobras seria vendida, nesse caso, por muito menos do que vale, deixará de gerar lucros para a Fazenda e seguirá sendo um antro de corrupção, pois nada mudará em suas práticas internas para beneficiar políticos interesseiros.



Outro ponto a ser questionado: o cerceamento da imprensa. Na primeira entrevista coletiva como presidente eleito, Jair Bolsonaro escolheu quais os veículos que fariam as perguntas, e tirou o direito de alguns desses jornais e revistas poderem questioná-lo. Isso, somado ao ridículo de determinar quem faria as perguntas em programa de rádio, o de Juremir Machado da Silva e Rogério Mendelski, o Esfera Pública da Rádio Guaíba, fere o direito constitucional de liberdade de imprensa. Como pensar em seriedade e preparo para governar com alguém que não gosta de responder perguntas contraditórias àquilo que esse governante pensa? Mas já era de se esperar, sendo adorador de quem é e venerando os regimes que venera. Tempos difíceis se aproximam, de cerceamento da imprensa, de ataques aos direitos dos trabalhadores e de ataque ao funcionalismo público, que acarretará na privatização da maior parte dos serviços necessários à população, serviços esses que ficarão cada vez mais precários e caros.

Na minha pequena conversa com a Manuela na caminhada de sábado pré eleição, eu pedi pra ela – e o fiz para o Miguel Rossetto da mesma maneira – para agradecer ao Fernando Haddad pelo ProUni, programa que permitiu a mim e milhões de brasileiros alcançar o tão sonhado diploma de ensino superior. Isso, e muitas outras conquistas do povo brasileiro pobre estão em risco. As pesquisas, que já foram atacadas no governo Temer, serão cada vez mais sangradas e extinguidas. O Bolsa Família, que teve promessa de aumento e acréscimo de um 13º salário, certamente será enxugado, com a justificativa de “passar um pente fino”, retirar do programas àqueles que recebem sem merecer, etc. Todas as minorias serão atacadas, e são tempos de resistência.


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