#95 - O Risco do Tuiuti
A escola de samba Paraíso do Tuiuti corre um sério risco no carnaval de 2019. Após ter surpreendido e emocionado o Brasil inteiro com o desfile sobre os 130 anos da Lei Áurea, perguntando ao mundo se realmente a escravidão estaria extinta, no próximo desfile a agremiação de São Cristóvão contará a história do bode Ioiô, eleito vereador em Fortaleza – o mais votado nas eleições de 2022. Mas não é pura e simplesmente a história do bode que estará na passarela do samba.
Foto: Hayanne Narlla/Jornal Tribuna do Ceará
Jack Vasconcelos, carnavalesco da escola, traça um paralelo entre a escolha do bode como vereador mais votado à época e as últimas eleições, lembrando da importância do voto consciente para a escolha dos nossos representantes em Brasília. Jack, que vai para o seu quinto carnaval na Paraíso, gosta desses paralelos políticos com a realidade passada e presente. Relatou, de forma chocante, como a escravidão se dá hoje em dia, mesmo que velada. Denunciou a Reforma Trabalhista, a Reforma da Previdência, e outras mazelas impostas pelo governo golpista de Michel Temer, mas tocou numa ferida que custa a se fechar: a eterna escravidão que se impõe sobre a população negra – Jack também mostrou como é feita a resistência à escravidão, que não é aceita de bom grado.
Mas voltemos a falar sobre o bode e o enredo. O título da obra é: O Salvador da Pátria. A sinopse nos aconselha que não devemos acreditar em um salvador, e um super herói que supostamente tomará o poder e resolverá todos os nossos problemas. Muito pelo contrário. Imaginem vocês, a indignação da população de Fortaleza, com a classe política, ao eleger um bode como vereador? E ainda por cima, ser o mais votado? A indignação com a política, o descrédito desta instituição para com a população, geram essas aberrações. E que aberração foi gerada na eleição de 2018? Não precisamos comentar. Elegemos o nosso Ioiô? Não. O bode cearense era uma figura querida da população, tratado pelo folclore de lá como ponto importante da cultura de Fortaleza, local para onde foi levado por retirantes em 1915. Lá, Ioiô ficava vagando pela cidade, acompanhando as pessoas por onde iam e ganhando a simpatia da população. Se tornou o xodó da cidade. Não havia quem não gostasse dele. Por aqui, o nosso “bode” atrai simpatia e ódio, mas já atrai muita desilusão do lado de lá.
Se diz anti sistema, mas antes de assumir já está envolvido em escândalo de corrupção. Ainda não conseguiu explicar a história das empresas comprando pacotes de disparo de mensagens pelo WhatsApp, e nunca conseguiu explicar a história da Wal, a funcionária fantasma. Nunca disse de onde veio os 432% de crescimento do patrimônio do filho, e sim, é o filho que deve explicar, mas nem pra isso o cabra se presta. O povo caiu no conto do vigário, na história da carochinha, ou melhor, no conto e na história do bode Ioiô.
Tendo essa história como pano de fundo, poderá desfilar tranquilamente a Paraíso do Tuiuti? Terá vida fácil? Será que os julgadores não receberão um manual sobre como julgar essa escola? Nesse ano, já não puderam desfilar com o vampiro presidente no desfile das campeãs. Forças nada ocultas poderão interferir no desfile do ano que vem da mesma forma. Autoritário que é, Bolsonaro não deve deixar essa escapar. Mas o que fica de lição e o que é irônico é isso: a família tradicional brasileira permitiu com que um bode se tornasse vereador e um asno se tornasse presidente.


Comentários
Postar um comentário