#98 - A esquerda que rivaliza com a esquerda

O maior dilema da esquerda tem sido a união entre os partidos do campo democrático e progressista em torno de um projeto comum de nação. Um projeto com uma política voltada para os direitos dos mais necessitados, dos mais pobres, dos negros, indígenas, das mulheres, das ações afirmativas de acesso e permanência no ensino superior, etc. Um projeto de desenvolvimento único que seja capaz de angariar adeptos ante os ataques diários do governo Bolsonaro, que deu continuidade ao desgoverno Temer. Mas há um temor, dentro dessa esquerda, que faz com que não estejamos unidos e nem saibamos qual projeto defendemos: o medo ou o constrangimento que a esquerda tem da própria esquerda.

Luis Macedo/Câmara dos Deputados

Continuamos nos alfinetando em público, defendemos projetos antagônicos, não temos uma pauta comum. Ao envidarmos nossas energias em acharmos defeitos uns nos outros - falo de partidos, mas também de pessoas, de quadros políticos - não estaremos combatendo o nosso inimigo maior: a ideia do que representam quatro anos de governo Bolsonaro (seus primeiros dias já deram um tom bastante alarmante). Vejo que as críticas - ou as autocríticas - devem ser feitas dentro dos próprios partidos, e não usadas como holofotes por outros partidos para fazer palanque e politicagem. Vejo também essas mesmas críticas como fundamentais à saúde política dessas instituições, porém elas devem fazer parte dos fóruns e reuniões delas mesmas, e não de postagens em Facebook ou Twitter para ganhar likes e seguidores. 

Esses antagonismos e picuinhas mal resolvidas entre partidos considerados de esquerda, repito, nos tira do foco principal: combater a reforma da previdência, os ataques aos direitos dos e das trabalhadoras, combater o escola sem partido com o escola sem mordaça, combater o racismo, a homofobia, a xenofobia, a LGBTfobia, etc. Enquanto estamos nos criticando, evitamos que as autocríticas sejam feitas, e alimentamos o nosso inimigo político e pessoal. Um exemplo da nossa falta de unidade e do crescimento silencioso dos nossos inimigos foi a eleição para presidência da Câmara dos Deputados. Em um bloco formado por PSOL, PT, PSB e REDE, somando mais que 90 votantes, Marcelo Freixo, que reúne todas as características necessárias para ser um grande líder da esquerda no Congresso, recebeu parcos 50 votos. Aonde foram parar os votos restantes, que não seriam suficientes para a vitória, mas poderiam consolidar o nome de Freixo como um líder da oposição? A esquerda, com isso, enfraqueceu a própria esquerda. Deputados do PT, do PSB - que tinha outro candidato - e da REDE pularam da barca no momento oportuno, aproveitando a não obrigação de se abrir o voto na eleição da mesa diretora. 

Maia ganha, com isso, autoridade e legitimidade para liderar as manobras do governo para aprovar as reformas estruturantes que retiram a maioria de nossos direitos. Prepare-mo-nos para trabalhar por 40 anos antes de nos aposentarmos e para ver os políticos trabalharem por oito anos e já receber as nossas custas para ficarem em suas residências sem trabalhar pelo Brasil. E esse é apenas o começo. O que faremos: atacaremos uns aos outros ou trabalharemos em prol da unidade de forças para barrarmos os ataques bolsonaristas? A palavra certa é UNIÃO. Mas na primeira oportunidade, "ninguém solta a mão de ninguém" virou um meme político e hipócrita. 

Comentários

Postagens mais visitadas