#103 - O Culto a Bandeira

Eis que para alegria geral do meu Brasil, o Henrique a Esquerda está de volta. Mais de um ano depois, muitos desafios. Passamos por diversos retrocessos para chegarmos até aqui, na situação caótica na qual se encontra a nossa política, a crise das nossas instituições, a moral do nosso país diante do mundo. Antes de entrar no assunto central, gostaria de discutir coisas importantes, para o tema ser melhor entendido. 

As manifestações políticas no Brasil de hoje.

Bem sabemos que, com a covid-19, devemos nos manter em isolamento (ao menos para quem pode e não precisa trabalhar). O problema central deste fato diante de um cenário onde o sistema de saúde pode colapsar a qualquer momento é o reacionarismo incitado pelo Presidente da República, que incentiva seus seguidores a fazerem mais e mais protestos pela reabertura do comércio, pelo fim do isolamento e distanciamento social, pela retomada normal das atividades. Mas vamos ao passado, lembrando dessas manifestações - proferidas pelo mesmo grupo político - antes da Presidenta Dilma ser afastada. 

Para se livrar do "fantasma do comunismo" que assolava o Brasil desde o primeiro governo Lula (para alguns desses lunáticos, desde que a Ditadura Militar acabou) foi preciso eleger um símbolo dessa luta, símbolo esse já utilizado em outras ocasiões onde se precisou expurgar esse fantasma: era preciso ser patriota, nacionalista. Nada melhor do que a bandeira nacional para representar esta luta. A partir de então - e isso é histórico, ou seja, não é de hoje - a bandeira do Brasil se tornou um símbolo de um espectro político. Quem utiliza a bandeira brasileira, seja sob os ombros, seja na varanda de sua casa, é de direita. Quem usa camiseta da seleção brasileira, é de direita. Este grupo político se apropriou tão bem desse símbolo que não se percebe mais bandeiras de partidos políticos de direita em suas manifestações, somente a bandeira do Brasil. A direita também se apropriou deste símbolo nas eleições de 2018, semelhante ao discurso de Collor em 89, quando dizia que "a bandeira do Brasil jamais será vermelha", pois vermelho é, e sempre foi (e dificilmente deixará de ser) o maior símbolo do comunismo/socialismo. 

Voltando um pouco mais na História

O bandeira nacional e o patriotismo foram símbolos de uma centralidade autoritária em épocas passadas. O maior exemplo de nacionalismo no Mundo foi a Alemanha nazista. A bandeira da Alemanha com o símbolo do nazismo era utilizada nos discursos de Adolf Hitler a fim de expor esse orgulho, de defender a purificação da raça ariana, de dominar o mundo pela via autoritária e antidemocrática. O nazismo deixou uma ferida aberta, quase impossível de ser fechada, na vida dos alemães de hoje, e de seus descendentes, e dos descendentes das famílias assassinadas pelo regime de Hitler. Em manifestação de 2017, a chanceler Angela Merkel, ao ver um de seus correligionários empunhando a bandeira da Alemanha, a retirou de sua mão (vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=UQPv21yRCJA), uma prova de que o culto a bandeira alemã evoca traumas do passado, feridas abertas que ainda não foram cicatrizadas. Se a própria chanceler - equivalente ao presidente de qualquer país - reprova a utilização da bandeira nacional em manifestações de seu próprio país, como não dizer que o culto a qualquer bandeira não nos leva a discursos autoritários e retrógrados? 

Toda e qualquer manifestação nacionalista, que elege a bandeira nacional como símbolo maior, que evoca o patriotismo, tem resquícios de autoritarismo, o que é provado pelo medo que muitos líderes tem de usarem a sua bandeira nas manifestações públicas.

Os protestos que ocorrem hoje, nas maiores capitais do Brasil, pela retomada do comércio, carregam esse tipo de autoritarismo. Por um bem maior, pela pátria, pela nossa bandeira, devemos ser nacionalistas e o comércio deve ser reaberto em sua totalidade. Ainda não alcançamos o pico da curva de contaminação e morte, e bem sabemos que as aglomerações em shoppings e outros estabelecimentos comerciais são paraíso para o novo coronavírus. Ser patriota, nesse caso, deveria ser defender o isolamento social total, com fechamento de aeroportos, rodoviárias, suspensão de linhas de ônibus, para conter de uma vez por todas esse vírus que restringe a nossa liberdade de ir e vir. Lógico que tudo isso não será feito, mas em se abrindo todo comércio, por exemplo, o vírus pode deixar de restringir a nossa liberdade, podendo passar a restringir a nossa vida.

Por isso, o Culto a Bandeira deve ser evitado. Patriotismo exacerbado nos leva a cegueira e a loucura. Não é isso que se precisa para combater uma pandemia de escala mundial. Nacionalismo deveria ter outro sentido que não o autoritário, e sim o de união pelo bem comum, que é a vida das pessoas. Não sou dono de comércio para entender as dificuldades de se manter uma loja fechada, mas sou humano para entender que a vida vem em primeiro lugar. Os políticos lá de Brasília deveriam entender da mesma forma. Certa vez, recentemente aliás, Bolsonaro disse que a linha de Mandetta, ex Ministro da Saúde, que vinha sendo muito elogiado pelo seu trabalho a frente da pasta, "era mais voltada para a vida". Pobre Mandetta, fazendo o seu trabalho. 

Além do vírus do nacionalismo, temos de enfrentar o vírus da ignorância. O presidente da república, Jair Messias Bolsonaro (sem partido) contraria todas as diretrizes do seu próprio Ministério da Saúde e da OMS (Organização Mundial da Saúde). Sai as ruas, provoca aglomerações, tosse na mão, limpa o nariz com a mesma e cumprimenta seus apoiadores, além de, supostamente, ter sido o único de uma comitiva a ter voltado da Índia sem o vírus. São muitas as chagas que temos de enfrentar daqui pra frente: vírus, autoritarismo, nacionalismo, ignorância política. 

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