#105 - PT, UM PARTIDO DE DIREITA

Para muitos, pode parecer confuso ou até mesmo paradoxal o que se seguirão nas próximas linhas. Para este singelo escritor de blogs, algo tão óbvio quanto a certeza da morte: o nosso país não é governado pela esquerda há muito tempo.

O Partido dos Trabalhadores se tornou, ao longo dos anos, linha auxiliar da direita. No discurso, tudo muito bonito. "Vamos lutar pelos mais pobres, pelos mais necessitados, que todo mundo coma picanha e tome sua cervejinha no final de semana". Na prática, corte de gastos e investimentos básicos, obras de infraestrutura paradas, diminuição do financiamento do Minha Casa, Minha Vida, protestos pelas universidades brasileiras por reposição salarial. O povo está cada vez mais insatisfeito em um governo que não iria largar a mão de ninguém.

Lula fez promessas, mas não está entregando o que o povão quer. Na prática, está fazendo aquilo que a Direita faria se ganhasse a eleição, ou até pior. Por isso, nos fóruns de discussão política que tenho participado, digo que a Direita ainda está no poder, sem nenhum tipo de escrúpulo. Apenas um discurso mais ameno, maior respeito as instituições democráticas, uma política externa de maior respeito e nada mais. O discurso se distanciou da realidade, mas isso não é de hoje.

Há muito tempo se fala que a esquerda precisa se reaproximar de sua base eleitoral antiga, que nada mais é do que a base da sociedade: o povo trabalhador e pobre. O preto e a preta favelados, gentrificados de seus espaços de direito, postos à margem da sociedade. Desde que tomou o poder, o Partido dos Trabalhadores tirou a fantasia para mostrar o que sempre foram: fantoches do capitalismo. 

Mas qual o caminho para a mudança?

Essa pergunta certamente não tem uma resposta certa. Tem caminhos mais assertivos, sem dúvida, mas não existe em política uma receita de bolo que, seguindo os passos da forma correta, não faça esse bolo abatumar. Mas vou tentar seguir uma linha que, de acordo com a minha formação política, julgo ser o mais benéfico para a sociedade.

O pobre de direita deixou de ser uma figura de linguagem ou meme de internet, para ser o que de fato representa a nossa sociedade. A direita conseguiu cooptar este sujeito, insatisfeito com as crises política e econômica que perpassam a nossa vida e que afetam o nosso bolso. O discurso de bom samaritano, de defensor dos pobres e oprimidos não cola mais. O que pegou mesmo foi o discurso da direita: austeridade fiscal, gastar menos do que se arrecada, proteger as pessoas com policiamento ostensivo, e basicamente falar daquilo que o povo quer que seja discutido.

O povo trabalhador não quer saber de linguagem neutra, de debate sobre aborto ou de manipulação da mídia. Ele quer falar de pautas que afetam a vida dele e de seus familiares. O povo quer saber se o preço do pão vai diminuir, se o preço da carne vai dar uma baixada, se a conta de energia não vai aumentar. Povão não quer saber de hino do Brasil cantado em linguagem neutra. Muito ajuda quem não atrapalha. 

Quem está na base da sociedade quer preços justos no supermercado, conta de energia e de água barata, passagens de ônibus mais baratas ou até isentas, quer ter acesso a saúde de qualidade, ensino público de qualidade, quer ter acesso as melhores universidades, quer sair em segurança na rua, enfim, tudo que lhe é de direito. A esquerda parou no tempo e a direita soube se atualizar sobre aquilo que a sociedade precisa. 

A direita soube dominar o cenário das redes sociais, aprendeu a se comunicar com a sociedade deste século. A esquerda brasileira está presa no discurso fabril do ABC paulista dos Anos 80. Lula deve estar sedento por uma greve, mas não é disso que o povo precisa, não é por isso que o povo se interessa. A sociedade brasileira do século XXI não fala mais as palavras "companheiro", "sindicato". A linguagem atual é a linguagem do empreendedorismo. Vivemos na era da uberização das coisas, das relações trabalhistas. A era da economia colaborativa, onde eu compro do barzinho da esquina, do cara que é meu amigo, que abriu um negócio e precisa de ajuda para pagar tanto imposto, porque de noite ele precisa fazer Uber para complementar renda. 

A esquerda precisa, justamente, atualizar a sua linguagem. O primeiro passo na realidade é fazer, por parte dos descontentes com o governo atual, o "desembarque" do mesmo. Por não ver perspectiva de futuro e de mudança em um governo de direita do PT, defendo que o meu atual partido, o PDT, faça isso. Em entrevista ao Jornal OGlobo, Carlos Lupi, presidente licenciado da legenda e atual Ministro da Previdência Social, disse para não contar com ele para apoiar o pacote de maldades - que corta na carne do trabalhador para manter o lucro dos mais ricos. 

Depois desse passo importante, o ideal seria "recrutar" (falando como pedetista) aqueles políticos do campo democrático da esquerda socialista, que estão atualmente insatisfeitos em seus partidos, e filiá-los ao PDT. É a única forma, sem a Federação, de fazer o partido sobreviver diante de um cenário político atípico e difícil para a atual esquerda democrática. 

A partir disso, precisamos trabalhar muito em cima de redes sociais. COMUNICAÇÃO. Falar com o povo, entender a sua linguagem, o que ele precisa. Fazer um inventário das necessidades da população e, a partir disso, trabalhar planos de governo que atendam a essas necessidades. E, desde já, trabalhar lideranças para os próximos pleitos, que serão muito importantes. Investir nas candidaturas legislativas para que tenhamos um legislativo forte, garantindo assim presença nos debates sem a necessidade de procurar uma federação com partidos que não são do mesmo campo ideológico.

Penso que essas são as melhores receitas para que a esquerda de verdade retome o protagonismo no debate público, e não seja motivo de chacota.

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