A História lembrará de vocês, nobres deputados e senadores.

O Brasil passa hoje por um dos episódios mais tristes de sua história. Quando o presidente da Câmara dos Deputados, que muitos ainda insistiram em chamar de nobre presidente, decidiu abrir o processo de impeachment, o fez por mera vingança, quando os deputados do PT do Conselho de Ética da Câmara não cederam a sua pressão e votaram pela abertura do processo contra ele. 



A hipocrisia imperou nessa tarde/noite em Brasília. Está muito claro que os motivos que fizeram a presidenta Dilma Vana Roussef, legitimamente eleita pelo povo brasileiro com mais de 54 milhões de votos, a praticar os atos que a fizeram ser praticamente deposta no dia de hoje (considerando a provável surra que o governo levará no senado), não são motivos ilícitos, de má-fé, ou que atentem a Constituição Federal de 1988. Dilma assinou as “pedaladas fiscais”, também assinadas por Michel Temer, para manter os programas socais, para manter o Brasil da mudança, da esperança dos mais pobres, da esperança dos estudantes, dos negros, das mulheres, das pessoas das periferias e dos trabalhadores do Brasil. O Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida, o Pronatec, o Fies, o ProUni, o Sisu, o Sisutec, o Brasil Sorridente, o Mais Médicos, o Luz para Todos, dentre outros programas sociais que mudaram a vida de milhares de pessoas, que deram o sonho da casa própria para as pessoas da classe baixa desse país, que tiraram 38 milhões de pessoas da linha da pobreza, que deram acesso as universidades, antes inatingíveis, a milhares de estudantes, que levaram luz para o povo nordestino, que levaram saúde a muitos (não todos) rincões desse país, todos esses programas sociais não se manteriam caso essas pedaladas não fossem praticadas. Prática essa comum em muitos governos da América Latina – de direita ou de esquerda – e de governos anteriores a Dilma e Lula. Portanto, isso me leva a crer que o que estava em jogo do dia de hoje na Câmara dos Deputados não era um mandato ilegal, que não é e nunca foi ilegítimo, e sim uma briga estúpida pelo poder. Se formos derrubar todos os políticos pela popularidade ou por esses supostos crimes, haveria um impeachment por semana no Brasil. 

Os “nobres deputados” conclamaram a voz do povo, querendo dar a entender que, pela maioria da população ser favorável ao impeachment (fato deveras contestável), esse processo deveria ser levado adiante. Se formos levar em questão a popularidade dos políticos, muitos não deveriam mais nem estar em solo nacional. Sartori já estaria em Caxias cuidando das suas uvas. Outros governadores certamente também estariam depostos. As vozes das ruas, se ouvidas pela popularidade dos seus governantes, causariam o caos eleitoral. Democracia é respeitar a maioria no voto, e não a popularidade de um governante. Democracia é respeitar as urnas, pois em outras eleições teremos a oportunidade de escolher outros governantes. A democracia e a Constituição Federal são claras, a opinião do povo, em determinado momento, para o caso do cargo de Presidente da República, deve ser mantida por quatro anos. Não cabe ao estado democrático de direito admitir que os eleitores voltem atrás no seu voto e o mudem. O crime de responsabilidade fiscal não existe, não está claro, a Constituição não foi violada.

Está se criando no Brasil um clima de terror. A incompetência administrativa do segundo mandato da Presidenta Dilma Roussef, que é inegável, que está levando o Brasil a recessão, não pode ser considerada como motivo para impedimento. Podemos citar diversos políticos que são administrativamente ridículos, ao longo da história, e que portanto deveriam ser julgados da mesma maneira. O impeachment não resolve a situação fiscal brasileira, que pelo programa de governo do PMDB, irá se agravar demasiadamente. O ajuste fiscal se aprofundará, o desemprego crescerá, os pobres serão cada vez mais prejudicados, e o povo brasileiro, conforme disse José Eduardo Cardozo, na sua fantástica defesa na Câmara dos Deputados, será colocado na periferia da história. O Brasil não esquecerá aqueles que se utilizaram da situação ruim do Brasil, da crise econômica, que é mundial, para proclamar discursos de ódio. Os oportunistas estão se aproveitando desse momento, se colocando do lado do povo por que uma suposta maioria da população é a favor do impedimento, para ter holofotes, para ter palanque, para ter popularidade. A hipocrisia desses discursos é gigante. Enquanto isso, não apresentam um projeto descente, não querem taxar as grandes fortunas, não querem proibir o financiamento privado de campanha – coisa que só os partidos de esquerda estão apoiando – não querem a redução da taxa de juros, não tem comprometimento nenhum com a retomada do crescimento, da geração de emprego, da geração de políticas públicas voltadas aos mais necessitados. 

Enfim, como já apontado aqui, a história não perdoará àqueles que estão do lado do golpe, contra a democracia e o estado democrático de direito. Muitos anos mais tarde, esses deputados serão conhecidos, pelos livros de história, como traidores da democracia, da Constituição Federal, e do povo brasileiro. Irá assumir o poder, a partir da provável aprovação no Senado, a chapa Temer/Cunha, que nunca se candidatou e não ganhou um voto se quer. Irá assumir um programa de governo neoliberal, antidemocrático, fascista, oportunista, que não preza pelo bem do povo, e sim pelo seu próprio. Irá assumir um governo sem aprovação popular, que segundo as últimas pesquisas, tem 1% das intenções de votos. Pela primeira vez na história mundial, assumirá um governo com essa aprovação, e pela primeira vez irá se depor, pelo parlamento, uma presidenta que não tem nenhuma acusação de enriquecimento ilícito, deposta ela por Cunha, que abriu o processo, e que é réu no Superior Tribunal Federal. Deposta por Temer, réu na lava jato. Deposta por pelos deputados que aprovaram o relatório na Comissão especial, que dos 35 votos favoráveis, 32 são acusados de corrupção. A história lembrará de vocês, nobres deputados e senadores.


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