Sobre se sentir em casa

A vida acadêmica proporcionada a quem frequenta a universidade, e as relações interpessoais que dela se originam, são coisas que nenhum estudante pode negligenciar. Nada na vida é perfeito ou acontece por acaso, mas tudo tem um lado positivo. Não temos nenhuma noção de como as pessoas entram nas nossas vidas, o motivo de elas permanecerem e muito menos o que nos afasta delas, mas só queremos que as mais especiais façam estada permanente. 

A UFRGS tem me proporcionado isso. Desde que ingressei no curso de Ciências Sociais, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, me sinto em casa. Quer seja pelos colegas ou pelo ambiente, já me acostumei a ficar 4 horas por dia dentro de uma locomoção, indo e voltando do campus do Vale, a famosa geladeira de Porto Alegre - é impressionante a diferença de temperatura para o restante da cidade. Claro que ela [a universidade] tem seus problemas, mas esse é um caso sistêmico, que não vai se alterar da noite para o dia. Porém nós, o alunado, somos quem pode mudar parte da situação, tocar em feridas abertas e latentes, abordar temas caros à vida acadêmica, usufruir da nossa capacidade intelectual para que esses temas sejam motivo de conscientização. 

Essa semana, nosso grupo de trabalho da disciplina Sociologia Hoje, composto por Aléxia Calage, Juliana Matias, Gustavo Peixoto, Luana de Brito e este vos tecla - enquanto o almoço não está pronto - apresentamos nesta semana que finda hoje um trabalho muito perspicaz sobre Racismo Institucional e a implicação do problema através da visão dos discentes, os nossos e nossas colegas. É esse tipo de trabalho que toca nas feridas abertas dos professores da instituição acadêmica, seja da UFRGS ou de qualquer outra universidade. Foi um prazer imenso desenvolver esse trabalho e poder, quem sabe, levá-lo adiante, pois esse é um tipo de seminário que não pode ficar apenas em sala de aula. Quais são os motivos pelo qual o racismo ainda se perpetua e passa de geração em geração? Por que a academia, como instituição, ao invés de incluir a população negra, que lá na frente pode ser força de trabalho qualificada, melhorando a vida de empresários e empregados, exclui os mesmos das funções mais bem remuneradas? Por que, dentro dos campus da UFRGS e de qualquer outra universidade, as negras e os negros ocupam, em sua maioria, cargos mais subalternos, como na área da limpeza, da segurança e da portaria? 

A UFRGS me proporciona um ambiente confortável, mas cabe lembrar ao leitor do outro lado da tela que eu sou o Henrique, homem e branco, esteriótipo que, ao longo dos anos, não sofreu nenhum tipo de preconceito ou segregação. Esse ambiente acolhedor e hospitaleiro, é o mesmo para as alunas e alunos negros? E quando falamos de gênero, será que as pessoas trans e homossexuais se sentem em casa (aqui já não estamos falando de cor, mas da população trans e homossexual de uma maneira geral)? Relatos comprovam que não, mas não cabe aqui tornar esse tema mais pesado do que já é. 

A linguagem das academias em geral é excludente. Os livros acadêmicos usam expressões machistas, pelo menos na minha visão. Quando um autor se refere ao ser humano como "Homem", ele exclui parte da população, como se Mulher fosse, como os europeus achavam que a população negra e índia eram, outra espécie de animal bárbara ou selvagem. As vezes eu mesmo utilizo essa linguagem - estou cuidando muito para, quando me referir ao ser humano em geral, usar esta expressão, ser humano - e isso é fruto de um machismo sistêmico, de uma sociedade patriarcal, que a cada dia que passa, aperfeiçoa suas ferramentas de opressão. Por isso, julgo que o feminismo é de fundamental importância, como forma de exercer um direito fundamental: igualdade independente de gênero. Concluímos, no nosso trabalho sobre Racismo Institucional, que o racismo é uma problemática branca. Aqui cabe dizer algo parecido: o machismo é uma problemática do homem (agora sim, homem enquanto sexo/gênero). Fomos nós que ao longo da história excluímos a mulher dos postos de protagonismo. Foi a sociedade patriarcal que proibiu a mulher de frequentar praias com roupas "indecentes", era a sociedade patriarcal que não deixava a mulher votar, foi a sociedade patriarcal que nos ensinou que lugar de mulher é na cozinha e o homem deve sustentar o lar, entre outras insanidades. As mulheres nunca se colocaram em posição inferior, muito pelo contrário. 

Percebemos esse machismo sistêmico, quando olhamos para a nossa história, de maneira muito didática e simples de entender. Quando olhamos a nossa lista de presidentes e percebemos que a única presidenta foi eleita em 2010, e ainda por cima sofreu um duro golpe, detectamos um problema. O próprio uso do termo presidenta foi renegado durante muito tempo, e ainda o é. Muitos jornais e revistas, e até pessoas na internet ligadas a mídias da esquerda, se referem a Dilma como ex presidente. Essa antítese entre presidente e presidenta gerou vários memes por parte dos anti-petistas, chamando Temer de presidento, numa flagrante piada de mal gosto. Não queria falar sobre isso neste artigo, mas até as pedras nas ruas sabem que o golpe foi, além de contra a população em geral, machista e misógino, independente da sua corrente ou preferência política. 

Enfim, o desabafo e o relato foram feitos. Espero que eu possa prosseguir, junto com os meus colegas, nesses trabalhos de pesquisa sobre racismo institucional e outros temas. Tenho ideia de trabalhar, mais para frente, com machismo institucional, pois nunca vi nenhum estudo nesse sentido - a menos que eu esteja com uma cegueira profunda, mas se existem, não são tão divulgados e não tem a mesma repercussão que outros estudos. 

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