#89 - A Meritocracia na sociedade de classes: igualdade ou exclusão?

O uso da meritocracia como a única forma de se justificar a ascensão ou a não conquista de certos direitos ou objetivos é recorrente na sociedade contemporânea, sociedade essa calcada na luta de classes. Você certamente já ouviu que, para passar em um vestibular de uma concorrida universidade, basta querer. Para não ser pobre, basta não querer ser pobre, afinal o emprego e o dinheiro estão ao alcance de todos. A falácia da meritocracia é o principal alicerce dessa luta de classes no Século XXI e, acredito eu, em toda história.

Como podemos não levar em consideração, por exemplo, a condição social de um morador ou uma moradora do Nordeste brasileiro, no que diz respeito a acesso ao pleno emprego, quando comparamos este ser humano com um habitante paulista/carioca, ou mesmo de outras localidades com uma indústria mais desenvolvida, com mais empresas e maiores chances de se obter uma vaga? Como não levar em consideração a classe a qual cada pessoa pertence, suas formas de ascensão, e se essa ascensão ocorre? É impossível pensar uma sociedade como a nossa sem nos livrarmos, primeiramente, desse conceito pouco inteligente do "basta querer, basta acreditar" que a Meritocracia tenta nos inculcar.

Em outra oportunidade, já fora mencionado neste blog sobre como os ciclos econômicos brasileiros são uma importante página na nossa histórica, tanto para entender a nossa situação econômica atual, quanto para entendermos as formas como as populações foram se formando, bem como as favelas e os bairros nobres, a periferia e os bairros ricos se constituem nos dias de hoje. Lembremos um pouco disto. Quando no Nordeste, dentro dos engenhos, nasce o ciclo da cana de açúcar, muitos brasileiros se deslocaram até esta região para se aproveitar dessa "nova mina de ouro". Após os holandeses iniciarem a sua própria produção nas ilhas da América Central, o mercado consumidor europeu se voltou para os novos cultivadores desse bem. Estabelecida a crise na produção do açúcar no Brasil, Portugal precisava encontrar uma nova fonte de riqueza e exploração. Ao tomarem conhecimento da descoberta do ouro pelos bandeirantes (paulistas) no final do Séc. XVII na região das Minas Gerais - o nome do estado brasileiro não é a toa - Mato Grosso e Goiás, inicia-se uma verdadeira corrida do ouro, que tem seu auge no Séc. XVIII. Portugal abriu os olhos para esta nova fonte que jorrava. Buscando enriquecimento rápido, brasileiros e portugueses se amontoavam nessa região em busca das pedras preciosas que o fariam ricos. Mal sabiam eles dos altos custos da produção, tanto em mão-de-obra (escravos africanos), quanto em compra de terrenos para exploração e equipamentos para tal. Somente os grandes proprietários rurais e grandes comerciantes conseguiram investir neste lucrativo mercado. Os que possuíam menor poder de investimento foram migrando para outras áreas. É assim que nascem os lugarem onde os mais pobres tem de morar, as favelas. Os ricos ficam com as regiões centrais e locais privilegiados e a população pobre fica com o que sobra (São Paulo, a capital, que possui pontos de extrema pobreza, mas que possui também seus bairros nobres, Rio de Janeiro, com suas favelas e barracões de zinco, mas com o Leblon, Copacabana, as praias e etc).

Nas regiões mais abastadas, é obvio que se criarão os melhores serviços - os melhores hospitais, as melhores escolas, o policiamento ostensivo contra a violência urbana - dando preferência, nesses locais, a iniciativa privada. Acesso aos melhores serviços, como citado na frase precedente, somente aos ricos. À população pobre, restam os serviços públicos nas áreas essenciais, como hospitais públicos hiper-lotados, escolas públicas de estruturas precárias e um policiamento que nem sempre garante a segurança, e muitas vezes oprime essas cidadãs e cidadãos - como visto frequentemente na mais recente intervenção militar nas favelas cariocas. As condições socioeconômicas são abismalmente diferentes, as oportunidades se dão de formas distintas. Como pensar, dentro deste contexto, nas chances de um estudante de escola pública e um estudante de escola particular, que além de ter estudado sob um regimento mais preparado, de maior qualidade, teve salvaguardado o seu direito a infância e adolescência, num vestibular de uma universidade federal, por exemplo? Como podemos acreditar que um jovem da periferia, que não tem acesso a informação, que não sabe como se comportar em uma entrevista de emprego, terá as mesmas chances que um jovem de classe média, com acesso a informação, e que muitas vezes nem precisa deste trabalho?

A Meritocracia é um conceito arcaico, o qual precisa ser extinguido do nosso cotidiano. As oportunidades, como visto e provado ao longo da história, não surgem para todo mundo da mesma maneira. Os pobres precisam de uma melhor e maior assistência por parte do poder público, poder esse que hoje é detido pela parte mais corrupta e destruidora de direitos básicos da nossa população. Dentro de todo este contexto, pensar no que tínhamos, que talvez não fosse o ideal, ou seja, a tríade Lula-Dilma-PT, e pensar no que temos agora, que sem sobra de dúvidas, está longe de ser o ideal, provoca uma tristeza profunda. Nunca tivemos um governo ideal, se formos severamente críticos com a forma como os políticos lidam com as relações de poder - o poder exercido sob a população. Tivemos sim muitas conquistas nos anos 2000, a partir dos governos petistas, que embora estarem longe do perfeito, constituem o básico do que precisamos. Era para se ter dado continuidade a esta evolução pela qual passávamos, corrigir certos percalços, é verdade, mas a quebra do paradigma da evolução perpassada na década passada e início dessa, foi negativa sob todos os aspectos. Assistimos nesses anos de governos populares a evolução de políticas públicas voltadas para a população pobre, como as cotas raciais e socioeconômicas, as ações afirmativas em outras áreas, o Bolsa Família, o Brasil Sorridente, o Mais Médicos, o ProUni, o Sisu, o Pronatec, entre outras ações, que quebraram parte desse conceito burro da meritocracia. Mas vem o Golpe, misógino e machista, que barra esta evolução.

O próximo governo irá ditar o ritmo da meritocracia, se esse conceito se fortalecerá ou se retomamos o caminho da evolução, de aniquilação dessa palavra do nosso vocabulário. E esse governo precisa ser popular, precisa ser de radicalização democrática e de participação da população nas principais decisões. Precisamos de mais comitês populares em defesa da democracia e da participação popular. Precisamos nos defender dos ataques dos barões do poder, precisamos defender os nossos direitos. Somente esse governo popular pode nos ajudar a sairmos do calabouço ao qual nos encontramos, de perda de direitos trabalhistas, de perda do direito de se aposentar, de perda da obrigação do ensino da história, da filosofia e da sociologia. A população carente precisa de acesso aos serviços essenciais, para que um dia não precise mais existirem as classes sociais, e possamos viver em uma sociedade literalmente justa.

Lembremos: fortalecer a meritocracia é fortalecer a desigualdade social. Fortalecer a democracia é fortalecer a igualdade e a participação popular.

Consulta: https://www.suapesquisa.com/historiadobrasil/ciclo_ouro.htm

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