#96 - Os primeiros capítulos do péssimo governo Bolsonaro

Histórico, cômico ou triste, dê-se o nome que quiser. O fato é que as primeiras medidas do novo governo são tão impopulares quanto as tomadas por Temer no seu período de governo golpista, entre 2016 e o final do ano passado. Michel Temer é um anjo se comparado a Jair Bolsonaro. #FicaMichelTemer. O que está acontecendo com o Brasil é uma tragédia sem precedentes, e um risco enorme que abre uma brecha de insegurança, medo e desesperança para este quadriênio que viveremos.

Histórico: a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) foi criada pela Lei 5.371 de 5 de Dezembro de 1967, e tinha, como uma de suas principais atribuições a demarcação de terras indígenas no nosso território. A FUNAI era responsável pelo estudo antropológico, identificação e demarcação dos territórios, muitos dos quais ocupados por povoados sem nenhum contato com a dita "civilização". Outra responsabilidade da Fundação: garantir a proteção de todos os povos indígenas, mesmo que esses não fizesse questão de se integrar à sociedade. Agora, todas essas atribuições são do Ministério da Agricultura, comandado pela Musa do Veneno, Tereza Cristina (DEM), uma das líderes da bancada do agronegócio na Câmara dos Deputados. Entregar a demarcação de terras indígenas para quem quer usufruir desse território para obter lucro é sentenciar de morte àqueles que, de fato, descobriram o Brasil. É algo grave, é um crime, é um assassinato, que tem a marca da família Bolsonaro e de suas ambições financeiras e ideológicas. Apagar a nossa verdadeira história parece ser a missão desse grupo político, criado para destruir as nossas riquezas e nossa soberania nacional. 

Triste: retirou a população LGBT das diretrizes dos Direitos Humanos. Não sendo esse grupo protegido por essas diretrizes, e sendo o Brasil o país que mais mata população LGBT no mundo, estamos também sentenciando eles a morte, praticando mais um assassinato. Isso prova, para mim, que as pessoas que votaram em Jair Bolsonaro (PSL) buscaram uma autorização, a institucionalização dessas práticas, as práticas racistas, machistas, misóginas, enfim, práticas preconceituosas. Querem botar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilamente. Eles sabiam que esse tipo de medida seria tomada, isso foi explorado como plataforma de campanha (o ataque aos LGBT's e outras minorias). Se negarmos esse direito aos LGBT's, estaremos tratando-os como animais. Animal, no Brasil e em outros países, em sua grande maioria, são tratados em cativeiro para o abate. Pergunta: os LGBT's serão tratados como porcos? Bois? Peixes? Quem tem um direito humano negado é tratado como outra coisa, menos como um ser humano. Essa deve ser uma preocupação de todo brasileiro. Tratar os diferentes como iguais atenua as diferenças. 

Cômico: extinguiu os Ministérios da Cultura e do Trabalho. Ainda pouco conversava com a minha mãe sobre isso. O Ministério do Trabalho tinha como uma de suas principais atribuições - e isso ainda funcionava no governo golpista Temer - a investigação e denúncia do trabalho escravo, chaga que o Brasil ainda não dizimou. Sem o Ministério do Trabalho, quem fará essa investigação? Quem será responsável pelo combate ao trabalho escravo? Ninguém, porque não é de interesse desse grupo político. Quanto menor for o combate a escravidão, maiores serão os lucros dos grandes empresários. E quanto ao Ministério da Cultura, responsável pela Lei Rouanet, e por diversos projetos voltados para a população mais carente, que tem na Cultura uma válvula de escape da vida dura que levam, o que dizer? É a obra perfeita de quem acha que investir em cultura é gasto. 

Irresponsável: Jair Bolsonaro tomou posse jurando a Constituição, isso depois de dizer, logo após ser eleito, que faria um governo "100% constitucional", mas passou por cima do Congresso quanto a venda da Eletrobras e concessão de aeroportos e ferrovias para a iniciativa privada. Uma aula de ignorância e desconhecimento das leis, características do até então deputado por 28 anos e que nada fez pelos brasileiros e brasileiras. A venda de estatais deve ser consultada pelo STF e passar pelo Congresso e Senado. Mas Bolsonaro é acima da Lei.

Desumano: essa é uma das principais características do presidente brasileiro. Além de ter dito que não teria um centímetro de terra demarcada para índios e quilombolas - isso em 2016 ou 2017, não me recordo - agora, no primeiro dia de governo, cerceou a liberdade de imprensa, de forma violenta e desumana, prendendo os repórteres que faziam a cobertura da posse (repórteres do mundo inteiro) desde as 7 da manhã, quando a posse seria apenas as 15 horas, tudo isso sem acesso a água, comida e sem poder ir ao banheiro. Essas são práticas ditatoriais e censuradoras. Nenhuma novidade para quem é um dos filhotes vivos da ditadura. 

Mais cômico, dessa vez até podendo ser um pouco engraçado, mesmo que o assunto não tenha graça nenhuma: enquanto Michele Bolsonaro fazia um discurso histórico em libras na posse do marido, o ministro da educação Velez Rodriguez, extinguia a secretaria que cuidava da educação dos surdos no Brasil. É engraçado, de certa forma, porque muitos apoiadores do "mito" enalteceram o discurso de Michele, que é sim histórico, porém, na mesma hora, a secretaria era extinta. Trágico, cômico e engraçado ao mesmo tempo. 

As primeiras medidas do governo Bolsonaro são irresponsáveis, desumanas, trágicas, e ainda faltam adjetivos para caracterizar o que é e o que será de nós nos próximos anos. Não se trata de torcer contra ou a favor, de torcer para dar certo ou errado: nós sabemos que dará errado. Privatizações sem precedentes nunca alavancaram a economia, elas dão um respiro inicial mas não são um investimento a longo prazo, elas não aumentam o PIB, não colocam o Brasil como protagonista internacional, desprezam a nossa soberania. Nos tornamos uma das maiores economias mundiais valorizando o que é nosso: a Eletrobras, a Petrobras, os Correios, o Banco do Brasil, a Caixa, enfim, inúmeras empresas públicas, com servidores bem pagos e valorizados. Éramos nacionalistas e patriotas. Agora, somos vendilhões. 

Colocar a culpa em tudo que é público, com a justificativa de que a máquina inchada é a culpa pelos enormes gastos dos governos e pela queda da economia, é uma estratégia que deu certo. Grande parte da população comprou esse discurso, e a esquerda não conseguiu fazer essa mesma população entender a importância dessas instituições, minadas pelos noticiários com denúncias de corrupção. Ficou fácil fazer campanha em prol da venda dessas empresas estatais. Discurso fácil também, e que pegou rápido, foi o do combate ao "coitadismo" no país que, repito e reitero sempre que necessário, mais mata LGBT's no Mundo. A medida de tirar esse grupo das diretrizes das políticas dos direitos humanos é, além de ideológica, populista. É o combate as práticas "socialistas" dos governos anteriores (até Michel Temer virou socialista). 

Fácil também é colocar culpa nos aposentados. Com a justificativa de que o país está ficando mais velho, querem aprovar uma reforma da previdência a qual já foi desmentida a sua necessidade, vide CPI liderada pelo Senador Paulo Paim. Mas estes mesmos salafrários que querem passar essa reforma a rodo não querem cobrar das empresas devedoras do INSS o dinheiro que seria suficiente para cobrir o rompo da previdência, e desmantelar a necessidade de tomar essa medida catastrófica. Mas vão tapar os ouvidos, se fazer de desentendidos, porque quem deve pagar a conta, nesses quatro anos, somos nós, os brasileiros pobres. Enquanto isso, seguimos, em 2019, sem passar a barreira dos mil reais no salário mínimo. Um episódio mais vergonhoso do que o outro. 

Bolsonaro é o político Caô Caô, cantado por Bezerra da Silva, aquele que primeiro pede o voto, depois manda a polícia bater e prender. É aquele que sobe o morro sem gravata, mas ao assumir a presidência, já autoriza a destruição da cultura indígena, a retirada de direitos fundamentais, o desrespeito a constituição, nossa carta magna, a dita constituição cidadã. Os próximos anos serão de muitos desafios, e até a luta é desanimada e sangrada pelas medidas do novo governo: com decretos - parecidos com os atos institucionais, da "saudosa" ditadura civil militar - conseguem destruir conquistas de minorias sociais que demoraram anos para serem conquistadas. É desanimador e desalentador. Do que adianta saber, na atual conjuntura, se a facada de fato aconteceu ou não? Do que adianta provar que as empresas doaram dinheiro para disparos de mensagens em uma manobra ilegal de campanha, se nada foi feito pelo Judiciário brasileiro, essa instituição falida e sem moral? Qual luta será suficiente para barrar essas medidas?

Fico aguardando, sem ansiedade nenhuma, pelos próximos capítulos. Quais direitos iremos perder essa semana? Quando os estudantes serão atacados? Quando as universidades serão atacadas? Quando as pesquisas serão extintas? Quando deixaremos de ser o futuro do país para sermos considerados, se já não somos, parasitas bolivarianos/venezuelanos/cubanos/comunistas/socialistas que devem ser eliminados da face da terra? Ou que devem ser mandados para Cuba, Venezuela, Bolívia ou outros países "esquerdistas"? Bolsonaro começou a governar muito antes de tomar posse: mandou embora milhares de médicos cubanos, que deixaram vagas abertas em pontos estratégicos do Brasil, em cidades abaixo da linha da extrema pobreza, e que agora penam para ter atendimento hospitalar digno, com um mínimo de qualidade. Vagas essas que não serão preenchidas, porque já não foram agora, não serão mais adiante. 

Vivemos em tempos onde essas medidas, para atender a população mais carente, são consideradas medidas de um governo socialista. É impossível medir a ignorância e a burrice do novo presidente, que não entende nada de regimes de governo, que não entende nada de economia, nada de sociedade, nada geopolítica, nada de política externa, nada de sistema judiciário, nada de educação, nada de nada. 

Vivemos em tempos piores do que imaginávamos. Em um Estado laico - cláusula pétrea da Constituição jurada pelo Presidente no dia da posse - temos um mandatário que diz que devemos respeitar a nossa tradição judaico-cristã, e uma ministra que diz que apesar de sermos um estado laico, "essa ministra é terrivelmente cristã". Desconsideram que existem diferentes tipos de deuses e entidades religiosas para brasileiros que pensam diferente e tem religiões distintas, das mais diferentes matrizes. A pastora da igreja evangélica, ministra da mulher, da família e dos direitos humanos, acha que existe apenas um Deus, o Deus branco, da família cristã. Deve achar ela que Oxalá é coisa do diabo, de batuqueiro, coisa de quem deve ser catequizado e integrado a "nossa" sociedade. Precisamos de uma demonstração mais medieval que essa? Não voltamos para 1964, retornamos a um tempo que muitas gerações passadas não viverem: Idade Média. 

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