Criminalização do Funk

O Portal e-cidadania, do Senado Federal, é uma importante ferramenta de participação popular, como já destacado em outro artigo deste blog. É possível, através desse site, propor ideias legislativas, as quais, se obtiverem apoio de 20.000 pessoas, passam para debates no Senado. Dentre essas ideias, estão algumas muito interessantes, como o fim da aposentadoria especial para Senadores e Deputados, a criação de centros de atendimento integral para autistas no SUS, entre outros. Mas também vemos algumas barbaridades, e uma me chamou muita atenção nessa manhã, quando olhava as ideias para dar o meu apoio: a criminalização do funk como crime de saúde pública a criança e aos adolescentes e a família, proposta por um tal de Marcelo Alonso, de São Paulo. 

Eu aposto todos os dedos das minhas mãos que esse cidadão tem um conceito deveras conservador de família: homem, mulher, filhos e porventura demais agregados, pois quando se coloca a 'família' como título de uma sugestão dessas, tu já deixas muitas coisas a entender. Por que o funk seria um crime? Por que ataca o que este "homem" entende como cultura? Ou porque ele simplesmente é um preconceituoso qualquer? Ele declara, na denúncia:


Primeiro que, para uma pessoa que está propondo uma ideia legislativa, ele não sabe se expressar muito bem, e não que isso seja uma regra, mas é de fundamental importância quando se está propondo algo de tamanha relevância como a tipificação de um crime. Segundo, ele está impondo o seu juízo de valor sobre uma expressão cultural de um povo. Uma pessoa, por pior que seja a sua opinião, deve primeiro pensar nas consequências que a divulgação de seu pensamento pode trazer. Isso remete aos tempos da ditadura, onde as pessoas eram julgadas pelo que criavam como cultura, como a música e o teatro, que naquela época incitavam o pensamento crítico. Por fim, e não menos importante, ele acredita em tudo que "diversos veículos de comunicação de mídia e internet com conteúdos podre" dizem, apesar de não ficar claro na frase se e está criticando ou elogiando as mídias, que "alertam a população o poder público do crime contra a criança, o menor adolescentes e a família". 

O Funk, por mais que eu não goste - e eu particularmente não gosto - é uma expressão cultural de uma importante parcela da população. Faz parte do "ser brasileiro", está intrínseco em quem aqui está. Ninguém é obrigado a ouvir, mas é obrigado a respeitar. Quando se quer tipificar um ritmo como crime, quando se quer impor um juízo de valor sobre as coisas, está se cometendo um grave crime. O que deveria ser criminalizado é esse tipo de sugestão. 

O funk é um estilo musical que tem origem na música negra norte-americana no final da década de 60, originário do soul music, tendo uma batida mais pronunciada e algumas influências do R&B, rock e da música psicodélica. Ele é, na verdade, um ritmo que mistura R&B, jazz e soul. Portanto, ele não é apenas os bailes funk feitos no Brasil, ou em qualquer lugar do mundo. Ele é uma coisa tão antiga quanto a MPB. O funk surgiu antes de The Beatles, The Who e Led Zeppelin, três das maiores bandas dos anos 60/70. Isso o coloca como melhor ou pior que outro estilo musical? Claro que não! Isso o coloca como uma página da história, e importante, pois como expressão cultural, educa ao invés de incitar o crime. 

A ignorância vai além:


"Os chamados bailes de "pancadões" (para o mundo que eu quero descer) são um recrutamento organizado nas redes sociais..." ou seja, nega-se o fato de que as pessoas podem simplesmente gostar de um ritmo porque ele serve apenas para atender criminosos, estupradores e pedófilos - como se estupradores e pedófilos não fossem criminosos - e o coloca como crime. Logo, se fosse aprovada uma barbaridade dessas, as pessoas que ouvissem funk seriam presas. Surgirá ainda uma sugestão legislativa que tipificará o rock como crime, pois rock é coisa de maconheiro? O cara coloca até o sequestro como consequência do funk. Absurdo. 

Os crimes que se cometem em bailes funk ou em qualquer outra festa que envolva qualquer tipo de música, devem ser investigados à parte, e não devem ser relacionados com o ritmo. Não nos esqueçamos que há muitas pessoas que ouvem diversos tipos de música e não são criminosos, pedófilos, estupradores, arruaceiros, sequestradores ou ladrões. O respeito aos nossos diferentes é a primeira regra a ser seguida. 

Fontes:

https://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaoideia?id=65513

http://brasilescola.uol.com.br/artes/funk.htm

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