#100 - Quem somos nós? A voz que não se cala!

No centésimo post do meu blog, não existiria data melhor e mais significativa do que hoje para publicar este texto. E gostaria também de, aqui, fazer um apanhado geral das coisas que vem acontecendo com o Brasil, desde que somos governados pela estirpe e pelo jeito Bolsonaro de fazer política – voltado para as elites e para os privilegiados socialmente. Tenho orgulho de hoje estar desse lado, de ter feito as escolhas que me formaram como cidadão e de estar do lado de pessoas tão especiais. Na luta nos encontramos e na vitória chegaremos.


Hoje, a um ano atrás, floresceu uma luta incansável dentro de nós, verdadeiras pessoas de bem, por mais justiça social, por maior igualdade e por mais esperança. Quando Marielle foi assassinada, todos nós perdemos um pouco da esperança na política. Ela é traiçoeira, ela acaba com pessoas por interesse, ela é cruel. Mas mal sabiam eles que, ao calar uma voz – que na verdade nunca será calada – abriram uma brecha para milhões expressarem-se por Marielle. Lembremos que ela é a ponta de um iceberg gigantesco, e que o caso ganhou repercussão por ter um cargo, por ser uma vereadora, e por ser incansável na luta contra os abusos dos policiais na intervenção militar no Rio de Janeiro, uma espécie de amostra da Ditadura velada que vivemos hoje em dia, no governo Bolsonaro. Por lutar por essas pessoas – pretos, pobres, favelados, marginalizados, LGBT’s – foi que calaram Marielle com a única linguagem que são capazes de entender: a bala. O assassino, policial reformado do Estado do Rio de Janeiro, morava no mesmo condomínio dos Bolsonaro, tendo sido sogro de um dos filhos do presidente. Coincidência? Sigo achando que não. 

Mas essa luta hoje floresce. Foi um pouco disso que me fez tomar uma das decisões de maior importância da minha vida nos últimos dias: me desligar do Partido dos Trabalhadores. Foram anos me considerando petista até a filiação, em 2016. Entrei no partido no nosso pior momento, era o pós-golpe e houve uma debandada geral em nossa cidade, e em algumas localidades o mesmo aconteceu. Diminuímos de tamanho, mas aumentou a nossa disposição. Mas algumas fissuras em mim ocorreram, algumas o partido provocou, e algumas atitudes fizeram com que se deflagrasse, em mim, o fim. Não existe conchavo com a classe patronal, com empresários e com as elites. Nosso diálogo deve ser a rua, deve ser as manifestações que evocam-se nos momentos mais difíceis: reforma da previdência, ataque a direitos trabalhistas, ataque as liberdades dentro das salas de aula com o escola sem partido, ataque aos direitos LGBT’s e dos negros, etc. 

Nossa unidade deve ser com o nosso povo. “É na luta que a gente se encontra”, não é mesmo? E esse ano foi, até agora, de muita luta e resistência. Nós, estudantes, seremos logo atacados com a tramitação de uma nova proposta de “Escola sem Partido”, algo mais sem sentido do que eleger quem está, hoje, no poder. Nossa posição é única: o projeto nada mais é do que uma desculpa para calar quem critica o governo, quem pensa “fora da caixa”, quem se questiona sempre. Uma das justificativas é a “desideologização” das escolas, visto que os professores e professoras devem usar a sala de aula para ensinar, não para fazer politicagem – o que é mentiroso e desleal. Ora, esse projeto é tão ideológico quanto se não existisse. Dizer o que os profissionais da educação devem ou não dizer, controlar o conteúdo, nada mais é do que ideologizar a escola, mas com uma ideologia apenas possível: o conservadorismo e o principal pilar bolsonarista, os costumes. As liberdades que nós defendemos são diferentes: por uma escola livre e plural, livre das mordaças e das amarras da escolarização militarizada, conservadora e autoritária, que inclusive autoriza o alunado a gravar as aulas, sem o consentimento dos professores, para denunciar a “doutrinação ideológica” (sic). Educação e pluralidade deveriam ser os fios condutores da educação e da humanidade. 

O ataque a previdência que nós, trabalhadores, sofreremos, é até inconstitucional. A previdência é um dever do Estado, e no modelo apresentado por Paulo Guedes e Bolsonaro no Congresso, o regime de partilha da previdência, vigente hoje, dará lugar ao regime da capitalização, onde grandes banqueiros controlarão a nossa aposentadoria. Ou seja, o Estado se exime de responsabilidade, e se o número de idosos que se suicidam crescer, a culpa será dos bancos – falo isso pelo sistema adotado por Guedes e cia ser demasiadamente semelhante com a previdência chilena, que causou um aumento do número de suicídios entre pessoas acima de oitenta anos. Bolsonaro e sua turma atentam contra a vida de todas as minorias: negros, pobres, índios, LGBT’s, estudantes e trabalhadores. É impossível que nessa luta nós não caminhemos juntos e não deixemos nossas birrinhas de lado e nossas ambições por cargos políticos, lembremos por quem devemos lutar!

Muitas pessoas me disseram que eu iria para o PSOL ou, como aconteceu em Gravataí, onde muitos petistas tomaram o caminho de Bordignon, ex prefeito da nossa cidade, eu iria para o PDT. Quero dizer que: a) pouco me representa hoje qualquer partido, e se fosse possível dizer um que me representasse mais, eu diria que o PCB tem diretrizes que mais se aproximam do que eu penso, mas não consegue executar, na prática, seu programa e seus debates com a classe trabalhadora. É um partido que está me olhando de longe, mas não tenho nenhum interesse político. Tem pouca capilaridade com o povão, com as favelas e periferias, onde estão instaladas muitas igrejas evangélicas. b) minha militância se dará de outras formas, principalmente na área da educação. c) me desfiliei do PT, não passei a ser idiota: a luta de classes é real e o primeiro passo para mudar o Brasil e o MUNDO é incutir nas pessoas isso: a consciência de classe, esse é um dos meus desafios. 

Uma das minhas diretrizes, e quero mergulhar nisso esse ano, são os enredos de carnaval. O carnaval, a maior expressão cultural do Brasil e do Mundo, que tanto é atacado pelo governo, o é por ser crítico e por ensinar as pessoas coisas que não são ensinadas nas salas de aula. A Estação Primeira de Mangueira e o Paraíso do Tuiuti encarnaram isso em 2019 e 2018, respectivamente. Uma sala de aula em forma de desfile. Doutrinador, com orgulho. Esse é o carnaval: contador das histórias mal contadas, ou não contadas. Já fiz dois enredos e mandei para grandes escolas de samba do Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Três escolas daqui querem conversar comigo sobre meu enredo sobre Bezerra da Silva. Aguardemos. 

Nossos desafios permeiam o futuro, e a eles devemos dedicar toda nossa estrutura e energia. Esse foi um dos motivos que fez com que eu saísse do PT – o foco em nós mesmos é primordial. Hoje, tenho uma sensação liberdade e de me livrar de um peso enorme. Isso não significa dizer que sou menos petista hoje do que era antes, acredito que até seja, mas esse processo foi se construindo ao longo dos últimos meses, perto inclusive da eleição do ano passado. A estratégia usada pelo PT para a presidência foi errada. Todos sabíamos que o Lula, preso ou não, não poderia concorrer – o processo no TRF-4 correu de forma recorde, e a ordem de prisão, contrariando Código Penal e Constituição juntos, foi inédito em nossa história. Jamais poderiam deixar o cara que tirou milhões da fome concorrer a esse cargo. Outra pessoa deveria ter sido preparada para o momento, pois Outubro de 2018 chegou rápido e passou voando: uma construção de candidatura não se faz em semanas – isso é sempre enfatizado pelo sempre lúcido Olívio Dutra. Haddad, por mais que não fosse o plano inicial nem ideal, deveria ter trabalhado a muito mais tempo como candidato: erro do partido, que deu no que deu – isso, na minha visão, não nos salvaria do bolsonarismo, mas poderíamos ter chegado perto. 

Uma frente ampla de esquerda deveria ter sido formada, com o fim de derrotar Bolsonaro no segundo turno. Ciro Gomes, um dos artífices dessa artimanha que só serviu a direita, descarregou toda sua indiferença ao, após a derrota no primeiro turno, viajar para a França, em um momento de ebulição histórica para o nosso país. Teria sido de maior dignidade se tivesse declarado abertamente Jair Bolsonaro. Está na conta dele grande parcela dessa derrota. A esquerda errou feio (e eu não considero Ciro de esquerda), mas o apoio de Ciro, que se dizia tão contra o capitão reformado, seria fundamental para transferir um maior número de votos dele para Haddad. Perdemos nesse sectarismo que abala a esquerda a muito tempo: somos plurais, mas não somos unitários quando precisamos. Pensamos diferente dentro da esquerda, mas não conseguimos nos unir para derrotar o principal inimigo: o que há de mais retrógrado na política brasileira e mundial, os saudosos da ditadura sangrenta, colocadora de ratos nas vaginas das mulheres. Pra essa derrota também foi fundamental a falta de diálogo com a base, com a classe trabalhadora, com as favelas e as periferias. O PT se distanciou desse que foi um dos pilares de sua história. Se tornou o que mais combatia: um partido que mais servia a direita do que unia a esquerda em torno de um projeto de país, com radical inclusão social, com reforma tributária e bancária, com reforma midiática, com taxação das grandes fortunas. Nada disso foi feito. 

Enfim, esses e outros desafios serão o norte de 2019. Com muita garra e muita luta, posso considerar meus antigos colegas de partido ainda como companheiros e companheiras, pois a luta é a mesma e continua. Árdua, difícil, mas ela precisa de nós, e nós dela. Por uma escola plural e livre, pro uma sociedade democrática com amplo acesso aos direitos a todas e todos, pela valorização dos trabalhadores, dos professores, dos garis, de todos! Pela Petrobras e pelos bancos públicos fortes, com uma política de valorização do que é nosso, do nosso produto, dos nossos valores, da nossa gente e da nossa terra. Precisamos valorizar o que é genuinamente brasileiro e demonstrar para o mundo a nossa importância. Sem mico no Twitter. Assim, voltaremos a ser respeitados lá fora, seremos referência e potência. Sempre teremos, mas poderemos mostrar, com maior orgulho, o fato de sermos brasileiros. Hasta! 

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