#102 - Reflexões sobre aulas da semana
Essa foi uma semana bastante pesada de aulas na famigerada Tia Ufrgs, no campus mais amado do Brasil, o famoso Campus do Vale. Pesada, porém de muito contribuição. Talvez tenha sido a semana de maior crescimento do meu nível de conhecimento e percepção sobre o Mundo. Muitas reflexões foram feitas, muitas construções avançaram, muitas discussões ainda estão por vir.
Começou na Terça Feira, com uma aula sobre Sociologia do Racismo e da Desigualdade Social. Nós, das Ciências Sociais, temos a fama de problematizadores, e uma das questões que mais nos incomoda - e temos lá a nossa razão - é quando uma temática negra é apresentada por um professor branco. Existem poucos professores ou professoras negras na nossa universidade, e esse é um grande empecilho para se ter esse tipo de cadeira apresentada por quem talvez tenha um maior embasamento, teórico e prático, para lidar com racismo em sala de aula. Mas vencendo, por ora, essa discussão, o embate nesta disciplina chega a outro porém: o racismo, ou a sociologia do racismo sendo discutida por um autor branco. Era de se esperar que um professor, mesmo que seja branco, tivesse a sensibilidade de ao menos debater o racismo com os alunos através de um autor negro ou africano, e exemplos de ótimos autores que escrevem sobre o racismo não faltam: Abdias do Nascimento, Kabengele Munanga, Grada Kilomba - tem até um texto da Marielle Franco rolando pela internet (dizem) que eu quero dar uma olhada - na realidade um artigo acadêmico. Mesmo que isso seja a grande problematização, há ainda um fato ou uma constatação que mexeu muito comigo, constatação essa a qual eu nunca havia parado pra pensar ou raciocinar sobre.
Nós brancos, sabemos de onde viemos, o negro nunca saberá. Apesar de forte e autoexplicativa, essa frase precisa ser explicada para entendermos o contexto. Qualquer pessoa pode dizer - e não terá perdido a razão ou dado vazão a loucura - que todos os negros vieram da África, do continente Africano. Há um porém: todos nós viemos da África, todos nós somos descendentes de pessoas negras. Mas nós, brancos, somos em grande parte descendentes de europeus, frutos da imigração de muitos italianos e alemães, por exemplo, para o sul do país - focando no Rio Grande do Sul. Temos acesso a nossa ascendência. Minha mãe, por exemplo, tem muito orgulho de ser descendente de italianos. Eu, por ter estudado história do fascismo e do nazismo, bem como o surgimento de todos esses movimentos nacionalistas, ditatoriais e totalitários, sinto vergonha, mas é uma questão de percepção. Sentindo vergonha ou não, conhecemos as nossas raízes; os negros não podem dizer a mesma coisa.
Eles sabem que vieram da África, muito provavelmente após o tráfico de pessoas escravizadas, que eram retiradas de suas terras, de suas raízes, para forçosamente adentrarem aos navios negreiros e viajarem para o continente americano. Porém, sua raiz era esquecida. Em terra brasilis, as famílias de pessoas escravizadas que conseguiram aportar em São Salvador e no Rio de Janeiro, os primeiros destinos, foram separadas ou até dizimadas. Essa separação, fora as condições degradantes de vida e de subsistência a qual viviam, foram fundamentais para as raízes do povo negro se perderem através da história. Se todos viemos da África, após nossos ancestrais mais antigos migrarem para outros continentes do globo terrestre, de quais países, especificamente, os descendentes de pessoas escravizadas vieram? Angola? Nigéria? Costa do Marfim? Como saberão? Os registro de nascimentos, se existentes, se perderam. E isso é muito triste. Esta simples explanação do professor me fez divagar sobre muitas coisas da sala de aula até em casa, e provavelmente ficarei pensando para o resto da vida.
Mas recém começamos.
Na aula de Epistemologia das Ciências Sociais, fizemos uma reflexão sobre o que é ciência e o que não é. Basicamente, ao menos o que eu entendi, subentende-se que quanto maior probabilidade ou aberta ao erro uma teoria for, mais "cientificável" ela será, ou mais próxima da realidade, mesmo que momentaneamente. O que fico pensando, coisas que foram surgindo durante a aula: talvez a ciência não procure de fato a verdade, mas sim verdades momentâneas, o que eu chamei de verdades ou teorias vigentes. Ela deve estar aberta ao erro, como afirma Propper, pois por ventura essa teoria pode ser superada, e é isso que a torna uma teoria científica. Mas o que são essas verdades momentâneas ou vigentes? Isso dependeria do que se está falando.
Um exemplo básico de uma verdade superada, ao menos no meio acadêmico-científico, é sobre a terra ser plana. Um dia acreditou-se que essa era a verdade ou teoria vigente, até que Copérnico, preso e condenado a morte por ser louco, teorizou sobre a terra ser esférica, redonda. Aquilo, na época, era uma insanidade, como hoje o é a terra ser plana, apesar de surgirem, nos últimos tempos, lunáticos defensores dessa tese. O que me confunde, mesmo nesse exemplo, é que hoje não é preciso fazer um experimento científico para provar que a terra é esférica - no mínimo redonda, no máximo oval - basta observar a terra a partir do espaço, e veremos que ela tem o formato de uma bola. Essa é uma verdade que não pode ser refutada ou falsificada, como explica Chalmers (sobre refutação e falsificabilidade). Essa seria, então, uma verdade absoluta, que é tão combatida pela comunidade científica? A terra ser redonda não é uma teoria contestável, é uma verdade sem refutabilidade. Qual é a abertura ao erro em dizer que o planeta Terra é uma esfera, uma bola? Afinal, o que é ciência?
Tudo parece ter sido mais leve se explicado nessas curtas linhas. Porém, são reflexões que ajudam qualquer ser humano a se construir e se constituir. A constituição, por exemplo, da identidade de gênero, debate cada vez mais relevante numa sociedade conservadora, é uma teoria que supera outras (existem apenas o homem e a mulher, e esses devem casar-se e constituir família). É importante sempre estar aberto ao erro, pois isso é ciência e isso é vida: tentativa e erro. Também na política e no nosso meio, das Ciências Sociais, que estuda todas essas causas. Também os cientistas de outras áreas não são apenas meras pessoas que jogam suas opiniões no ar: eles trabalham com teorias que ou superam outras ou se provam inverídicas.
Sem me estender muito, posso afirmá-los que essa foi uma semana muito longa, de muito conhecimento e aprendizado. É para isso que existe a universidade pública e o pensamento crítico: para formar cidadãos que sempre se questionem, sempre estejam abertos ao erro, mas sem medo de errar. É preciso fortalecer essas instituições, para que preparemos os jovens que entram na universidade para o mundo acrítico que se planeja pelo atual governo, com projetos retrógrados como o Escola sem Partido e o corte cada vez mais profundo na área. Eles não suportam a formação de opinião e questionamento. Eles não querem protestos e fogem de um lugar onde se marca uma manifestação contrária a eles mais do que o diabo fugiria da cruz. É uma pandemia generalizada: ao se baterem de frente com um ser questionador, como a Deputada Tabata Amaral, observa-se o seu despreparo e a sua falta de planejamento, e fogem inclusive do cargo. Esse governo mal sabe o que está fazendo. Velez-Rodrígues, em três meses de governo, não fazia a menor ideia do que fazer na educação. Um Power-Point com uma lista de desejos - alguns justificáveis - são tão toscos quanto a vergonha internacional passada por nós no Mundo inteiro.
São as águas de março, que fecham o verão.


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