Justiça com as próprias mãos

Eu não sei o que é mais babaca, o Bolsonaro ou a tese de que justiça com as próprias mãos funciona. Ao longo dos anos, vemos o Brasil atravessando uma longa história desses que se dizem justiceiros. Mais um caso, daqueles que se tornaram conhecidos para nós, veio a tona essa semana: um jovem de 17 anos estava desaparecido desde o dia 31 de Maio último. Dois cidadãos, que se acham os policiais sem farda, juízes sem toga, etc, acharam o menino e tatuaram na sua testa a inscrição: "eu sou ladrão e vacilão". O jovem, segundo a família, é usuário de drogas, e não estava gozando de suas faculdades mentais. 


Vamos supor que a família mentiu com relação a doença mental do adolescente e que ele seja apenas usuário de drogas. Ele foi "preso" por duas pessoas e, como forma de punição, teve a referida frase tatuada na testa. O que lhes dá esse direito? Do que adianta tentar curar uma pessoa criando mais bandidos? Se justiça com as próprias mãos é crime para o Estado, não se discute o que é errado para a sociedade, se é crime e eu o cometi, eu devo responder por isso. Se é crime, porque o fizeram? Pelos 15 minutos de fama que eles tiveram? Agora temos 3 bandidos: dois tem chance de recuperação, pois precisam pagar pelo que fizeram para aprender a não voltar a fazer. Já o adolescente, que supostamente é usuário de drogas e deficiente mental, não, pois tem uma tatuagem na testa que o pune a vida toda. 

Defender bandido está longe das minhas pretensões. O que eu defendo é que todos paguem por seus crimes, mas que sejam tratados com dignidade e com seus direitos salvaguardados. É muito importante pensar nas chances de recuperação dos criminosos, do contrário, qual seria o sentido em prender eles? Que chances tem uma pessoa com uma tatuagem daquelas? Poucas, quase nulas. Enquanto se faz isso com os bandidos, não se ataca a raiz do problema. Enquanto as cadeias brasileiras forem do jeito que são, nunca poderemos sonhar com um sistema prisional que funcione satisfatoriamente. Enquanto as prisões forem verdadeiros calabouços, os bandidos continuarão sendo bandidos, e os justiceiros continuaram existindo. 

Construir novos presídios pode ser a solução a curto prazo, mas antes devem ser feitas, previamente, reformas nos atuais. Depois disso, só com educação de qualidade, desde que seja uma educação revolucionária, que dê acesso a todos, que não negligencie o acesso aos mais pobres, que realmente eduque pra vida, que ensine bons valores, que atue conforme a ética, que não seja excludente e preconceituosa, que seja acolhedora, para revolucionar a maneira de ser das pessoas e oportunizar melhores chances na vida dessas. As periferias estão cheias de bocas de fumo, pontos de venda de drogas e afins, que "recrutam" jovens pessoas para o tráfico. E quanto mais se ignora a legalização e descriminalização dessas drogas, mais pessoas entram nesse mundo, que, vamos ser sinceros, dá muito dinheiro. 

Comentários

Postagens mais visitadas