A polêmica da cultura ou apologia a pedofilia e o 11/09
Desconheço o teor total da polêmica exposição no Santander Cultural. Eu sou uma pessoa que nunca fui muito afeiçoado a arte, principalmente a pinturas. O que eu não consigo entender é o fato de uma instituição que diz defender a cultura, de repente (e não mais do que de repente) passar a atacar e ir de encontro àquilo que outrora fazia: passou a concordar com quem atacava as obras de arte que criticavam a igreja, por exemplo, ou que por ventura fariam apologia a estupro ou pedofilia.
1 - As pessoas que frequentavam essa amostra, a frequentavam sabendo do seu conteúdo de forma prévia. Portanto, os que enxergam como apologia a alguma coisa, provavelmente não chegaram perto dessa exposição. O MBL, que ao invés de pautar coisas importantes (o desimportante aqui é a crítica feita a amostra, uma perda de tempo desnecessária), prefere se envolver com esse tipo de polêmica "porque fere os bons costumes". Acredito que vá da interpretação de cada um. Eu, por exemplo, que não entendo nada de obras de arte, não vi nada de mais, mas é a visão de quem não entende. Não acredito que alguém tenha pintado estes quadros com a intenção de fazer alguma apologia a algo que é proibido.
2 - Os recursos utilizados nessa exposição, retirados com base na Lei Rouanet (R$ 1.000.000,00), se não fossem utilizados nesta, seriam utilizados em outra exposição, portanto, não cabe aqui dizer que o dinheiro foi retirado do nosso bolso e poderia ser utilizado em outra área, como saúde, educação ou segurança. O que as pessoas que tem preguiça de construir um debate consistente se recusam a admitir, porque está bem a frente dos seus olhos, é que orçamento com base em lei é uma coisa que não se altera. Se não fosse esta, seria outra exposição, e esse dinheiro vai continuar sendo utilizado, pois serve para fomentar a cultura - independente da concepção de cultura de cada um. E cultura e arte, é de conhecimento de todos, tem uma função social muito importante, que não cabe discorrer aqui, mas que deveria ser levada em consideração por pessoas que protestaram contra a exposição do Santander: retira crianças das ruas, enquanto estas poderiam estar perdidas em outros corredores, que não os de um museu.
3 - A indignação quando se "ofende" a religião católica, com o seu Cristo crucificado em diferentes posições - uma das imagens que eu cheguei a ver dessa exposição - não é a mesma de todos os dias, quando pessoas praticantes de religiões africanas sofrem preconceitos pelas suas crenças. Muitas são assassinadas, inclusive. Críticas aos "macumbeiros", vemos e ouvimos aos montes, e em absolutamente TODOS os dias. Mas mobilização por parte dos mesmos setores que se dizem ofendidos quando se fala em apologia a estupro, pedofilia ou críticas a religião católica, inexiste. Os bons costumes, ao que me parece, estão reservados apenas as famílias brancas e católicas.
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Também não é novidade algo que digo frequentemente: todo dia é 11/09, por exemplo, na Síria, que vive em Guerra Civil a muito tempo. Ocorreu uma tragédia e muitas pessoas morreram em 11/09/2001, mas isso acontece todos os dias na África: pessoas morrem de fome e de sede, o que é uma tragédia muito maior (que mata muito mais do que dois aviões se chocando contra dois diferentes prédios). A comoção - na mesma toada utilizada no assunto passado - não é a mesma, são dois pesos e duas medidas. Nenhuma vida é mais ou menos válida, o que se questiona é a mídia utilizada e a valoração dada pelos veículos de comunicação com as mortes que ocorrem ao redor do mundo. Com as torres gêmeas, documentários e mais documentários sobre uma tragédia, sobre a dominação terrorista da violência no mundo, como se inocentes fossem apenas os americanos. Com a África, ou mesmo o Haiti, explorações e mais explorações.
Nas duas questões, tanto o 11 de Setembro quanto a exposição no Santander Cultural, o que impera é o preconceito, típico de sociedades que não entendem que cultura e senso de humanidade são as bases para um mundo melhor, aquele papo clichê de sempre, porém pertinente.



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